terça-feira, 23 de março de 2010

Sociedade e doenças no século XIX – Da febre amarela á Gripe H1N1.


Foto 1- Charge “A cólera na família brasileira” – Jornal A semana Ilustrada.
Foto 2 – Bandeira do Império do Brasil.
Foto - 3 - A carta da morte no tarô.
A humanidade é fisicamente doente há muitos séculos, para ser mais sincero caríssimos e saudáveis amigos, milênios.

Desde que o planeta fora concebido como tal conhecemos, existem vírus, protozoários, fungos e bactérias e suas manifestações físicas como tosses, dores de garganta, febres e convulsões fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas de diferentes culturas e classes ao longo das estradas anuais.

Esses seres são mais velhos que o ser humano e necessitam de animais e vegetais para poder servir de hospedeiros para se reproduzir.

Ceifaram com a lâmina afiada da morte ocidental, enegrecida, com face de caveira fétida, toda a espécie de civilizações: ricas e pobres, negras e brancas, rurais e urbanas, modernas ou arcaicas tendo o sangue correndo pelo solo com gritos de dor e clemência dos sobreviventes.

Índios escravizados foram exterminados não apenas fisicamente pelo colonizador manipulador, mas em grande quantidade por um “predador” que eles cá trouxeram exemplificado na gripe comum, a pouco versada influenza sazonal, pois seus organismos não possuíam anticorpos contra esses invasores invisíveis.

Seus corpos eram imuno-deprimidos e por isso adoeciam e morriam com extrema rapidez, causando falta de mão de obra na “ação” colonizadora.

Extermínio próximo em forma comparativa é a epidemia de AIDS que assola o continente sub saariano. Os africanos de hoje são os grupos indígenas de outrora, frágeis e manipulados.
Grande parte do povoamento do litoral do Brasil fora feito por conta do degredo português no que eles chamavam de: limpar a metrópole, levando a sujeira social das ruas para o inferno verde de tucanos.

A rainha Dona Maria I de Portugal, mãe de D. João VI por causa de ignorância (fanatismo) religioso acabara sendo a culpada pela morte do filho mais velho, D. José príncipe do Brasil e da beira, herdeiro presuntivo ao trono português causado por varíola por se recusar a vaciná-lo. Acreditava que só Deus tinha o poder de curar ou matar alguém.

O Império Português, o mais católico da Europa via na ciência a heresia e com isso muitos estudos da área de saúde foram proibidos e combatidos com penas que variavam desde o açoite em praça pública a morte por enforcamento.

Grande incentivador das pesquisas médicas, o Marques de Pombal fora preso e seus direitos políticos cassados. D. Maria e seu marido D. Pedro III formavam a mancha evolutiva de Portugal.
Doenças e pestes eram vistas como castigo divino e forma de resignação a Deus. Ciganos, Judeus, prostitutas, hereges, sodomitas e toda espécie de minorias foram os grandes responsáveis pelos ares impuros da metrópole e de seus domínios ultramarinos. Causavam a desgraça pública e moral da velha mãe Europa.

A grande causa das moléstias do passado sem dúvida está relacionada à falta de higiene com o próprio corpo.

Durante muito tempo era costume na Europa a idéia de que ao lavar o corpo, o homem perdia suas defesas de organismo. A sujeira era uma barreira que impediria as doenças e protegeria a saúde física.

Habitantes portugueses degredados no Brasil nos séculos XVI e XVII assim como índios de diversas etnias adquiriam o hábito de lavar o corpo em rios, córregos e no mar. Só veríamos essas cenas novamente dois séculos mais tarde.

No Brasil Colônia e Império por influência da metrópole era comum na hora do banhar (lavar o corpo inteiro com esfregão), a família usar a mesma água do tonel de madeira (banheira), de forma decrescente, do parente mais velho da casa (patriarca) ao mais novo (filhos ou netos).
Nisso, a sujeira coletiva acabava contaminando a criança (frágil) por microorganismos, aumentando a taxa de mortalidade da família.

Muitas crianças morriam recém nascidas por causa do que era conhecido e temido na época como mal dos sete dias.

Era a inflamação do umbigo causado por bactérias, por falta de higienização e limpeza. Pode parecer brincadeira do ponto de vista atual, mas foi registrado em diários de viajantes casos de parteiras que demoravam até oito horas para cortar o cordão umbilical da criança.
Milhares de anjinhos subiam aos céus chamados pelo arcanjo Miguel por causa desta complicação.

Pode parecer absurdo, mas, uma pessoa no século XIX, branca, fidalga, aristocrata poderia tomar banho uma vez a cada 12, 15 dias, dependendo da região do Brasil.

Em locais mais frios como nas províncias do Rio Grande e São Paulo de Piratininga podia o banho completo ocorrer a cada dois meses ou mais.

Durante os treze anos em que esteve no Brasil, só existe um registro histórico de banho de D. João VI. Em uma tarde de caça, na Real Fazenda de Santa Cruz, no subúrbio da corte, o Rei foi picado por um carrapato e por conta da falta de limpeza e lesleixo, o ferimento agravou e causou febre.

O mordomo mor, Matias Lobato recomendou banhos de mar por conta do sal que servia como cicatrizante natural. O local foi na enseada de Botafogo. Escravos de ganho, homens, mulheres e crianças viram a cena e o “milagre” foi documentado oralmente.

Ao ver contos infantis readaptados dos irmãos Grimm, com Reis elegantes e princesas limpas vemos que é tudo mesmo um mundo de fantasia. Não lembra em nada uma época sem esgoto, luz elétrica ou mesmo água potável.

D. João mesmo soberano de Portugal, Brasil e Algarves fora Angola, Madeira, Açores e Macau costumava não trocar de roupa até que a mesma apodrecesse ou rasgasse por inteira no próprio corpo.

A sociedade disfarçava o (C.C) cheiro de corpo que muitos já consideravam odor natural, com óleos aromáticos e perfumes. As mulheres usavam paninhos umedecidos com ervas para o rosto e os homens lavavam apenas o rosto para receber visitas ou arruar pela cidade.

Banho completo apenas em ocasiões muito especiais: casamentos, formaturas e batizados. Inimaginável essas situações de imundície lendo romances de Machado de Assis ou vendo novelas globais das 18 horas.

Pouca gente sabe, mas, em 1858, ocorreu um surto de piolhos e de sarna na Corte carioca causados principalmente por falta de limpeza da própria população.

Hábito luso, mau hábito que ia da família real ao camponês. Chuva era desespero. Se hoje é ecologicamente associando a vida, no passado era de doença e morte.

Basta lembrar que a Tuberculose era a doença mortal do século XIX, romantizada por poetas, temida pela população em geral.

Apenas na década de 1880, a boa sociedade, que queria ser esclarecida, refinada, colocaria em prática os conselhos dos médicos europeus, que formaram a elite médica exportada do Império Brasileiro (filhos de grandes comerciantes, senhores de engenho de açúcar e café, filhos de senadores e ministros do governo).

São criadas as primeiras casas de banhos termais, formadas por duchas que alternavam entre o quente e o frio e que além de serem indicados pra fins terapêuticos, tratamento de doenças mentais era a forma mais moderna de higiene de corpo.

Era com isso o reflexo do tema moderno “corpo são, mente sã”. E representava a modernidade do filho da elite que pagava caro e fazia o “social” entre as famílias abastadas que viajavam com freqüência a Europa.

Como vocês podem perceber tudo, inclusive saúde no Brasil era uma questão da moda importada, européia. As cascatas de água vão ser os novos sons da ópera romântica dos ricos imperiais.

O velho continente percebeu que a saúde dos seus estava em perigo e as Américas copiaram suas novas leis de limpeza e sanitarismo.

Nos centros urbanos do Império do Brasil, as cidades eram mal planejadas, mal arborizadas e com o aumento de população local, graças à abertura dos portos, incentivo a imigração e descontrole de natalidade, bairros dos centros foram se tornando cheios, abarrotados de todo tipo de pessoas criando comunidades individuais, micro cidades dentro de cidades.

Os cortiços eram formados por milhares de pessoas que dividiam um espaço pequeno, úmido, apertado e fechado que acabaram se tornando focos letais de doenças como a cólera morbun, a tuberculose, a febre amarela, a gripe sazonal e a febre tifóide.

Aluízio de Azevedo em seu romance “o cortiço” expõe com maestria a realidade brasileira que a elite Imperial queria esconder ou eliminar. O realismo acaba rompendo com o romantismo utópico da vida do brasileiro.

Quando ocorria algum surto na cidade como os de febre amarela e cólera, já mencionados, a Família Imperial se refugiava em Petrópolis e só quando os sintomas das moléstias cessavam, voltavam para a corte, geralmente após o verão.

Durante o carnaval carioca de 1858, milhares de pessoas contraíram febre amarela superlotando as misericórdias e muitos habitantes morriam em quatro ou cinco dias.
Viáticos e padres não davam conta da extrema unção, sepultando o mais rápido possível para evitar a contaminação.

Roupas de cama eram incineradas, caixões eram empilhados nas praças públicas, sinos pós-morten não paravam de tocar em todas as horas, crianças e mulheres não saiam de dentro das casas, repartições públicas entraram em recesso.

Pedro II visitava hospitais de irmandades e dos Lázaros e anotava receituários de remédios e curativos, prometia estudos. Nuvens de fogo e bandeiras pretas eram hasteadas nas portas e janelas das casas sinalizando que aquele espaço era perigoso e poderia ser foco de contaminação.
A aglomeração junto ao fator climático tropical e as casas coladas, empilhadas umas nas outras, dando uma aparência cubista além do hábito privado das famílias brasileiras em jogar as fezes e urinas no chão das calçadas das ruas onde ratos e baratas circulavam como se fossem cidadãos de respeito, a falta de limpeza e troca das águas das bicas e chafarizes que tinham a água poluída pelos próprios moradores.

Brancos e escravos de ganho que utilizavam a própria água suja, exposta dias ao sol, para lavar roupa de casa ou a serviço de dinheiro e para a preparação dos alimentos para o almoço e jantar. Explica sem dúvida o porquê a população adoecia gravemente.
Com toda a certeza, nesse relato extraído dos diários particulares de Dona Eufrásia Teixeira Leite se vê que grande parte das doenças endêmicas do Brasil se relacionavam com limpeza e poderiam ter sido evitados.

O uso da água não filtrada e fervida causou a morte de muitos do Império por febre tifóide. inclusive da Princesa Leopoldina de Bragança e Coburgo, irmã da Princesa Isabel, e filha de D Pedro II só para citar uma personagem que causou comoção pública no período oitocentista.

Por isso mesmo, hoje, agradeçam o fato de tomar água mineral independente da marca, pois no passado água também podia ser sentença de morte eminente.Nas primeiras décadas do século XX, ainda por conta de uma sociedade com mentalidade patriarcal e preconceituosa, homens se recusavam a abrir as portas de suas casas para receber os agentes sanitários da República.
Alegavam invasão de privacidade alem de afronta moral já que suas mulheres teriam de levantar as “saias” para estranhos médicos e agentes de saúde.

Essa foi à situação vivida pelo médico sanitarista Osvaldo Cruz no período da revolta da vacina quando a medicina estava lenta em experimentos laboratoriais.

Mesmo após uma campanha de saneamento e drenagem de esgoto ainda dos tempos do Império, a República Velha continuava a se afastar dos problemas de limpeza, criando novos bairros e marginalizando, abandonando as zonas centrais.

Os tigres (negros que coletavam os dejetos das casas,) foram substituídos pelo servidor público remunerado que derramava o lixo nos rios e canais da cidade em vez de aterrar-los assim como no passado recente.

Na prática da saúde dos habitantes, não houve mudanças significativas até aquele momento.
A partir das décadas de 1940, e 1950, o governo brasileiro investe financeiramente em estudos e cria o Ministério da Saúde (junto do da educação – vela salientar) capacitando profissionais para o combate de doenças tropicais.

Há algumas décadas, o medo e a desinformação criavam pânico na população. Não se conhecia a profilaxia, a prevenção do mal. A dificuldade de comunicação e a distância entre as províncias alastravam as doenças.

Misticismo junto com curandeirismo prometia o milagre da salvação do corpo e da alma do doente, do moribundo, velas e novenas iluminando procissões percorriam as ruas. Todos poderiam se contaminar e não saber a causa.

Informação é invenção do mundo moderno. No século XIX, a comunicação era de boca em boca.

Hoje, acontece um fenômeno interessante e totalmente novo, aos olhos da história da humanidade. Acompanhamos em tempo real a criação, a proliferação e a multiplicação dos vírus e bactérias.
As mídias modernas, representadas na internet e na televisão, são também meios que informam a população sobre o surgimento de uma nova doença. Criam a informação e o caos ao mesmo tempo por muitas vezes deturpar informações ao povo.

Porém as mesmas se multiplicam com mais facilidade e em menor tempo do que no passado pela facilidade de locomoção moderna via trafego aéreo ou terrestre.

Não que as doenças não vinham em meios de transporte, aliás, no passado quase em sua totalidade. Navios eram bombas de enfermos ao mar, onde a taxa de mortalidade era em média, mais da metade dos tripulantes.

Mas o tempo dos extremos, do imediatismo em que vivemos encurtou as distâncias. Podemos estar no mesmo dia em vários países e continentes e contaminarmos caso estejamos doentes varias pessoas, fugindo ao nosso controle.

No século XIX algumas doenças eram excludentes, eram chamadas pejorativamente como “mal de povo”, atualmente as vejo democráticas, contaminam ricos e pobres, velhos e adultos, heterossexuais e gays.

No passado, as santas casas de misericórdia, criadas em Portugal cuidavam de enfermos das províncias do Brasil, dando assistência médica e curativo aos enfermos.

Hoje precisamos marcar consulta com meses de antecedência na rede pública estadual e contar com a sorte de ser chamado.

Uma coisa é certa. Voltamos ao passado sendo cólera, febre amarela ou gripe H1NI. Somos humanos e temos medo, terror daquilo que não temos controle absoluto.

Não ter todas as respostas para as indagações fisiológicas e corpóreas é a grande doença na mente do homem do século XXI.

Referências Bibliográficas:
ALENCASTRO, Luís Felipe de. O trato dos vigentes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XV e XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
JARDIM, David, Gomes. A higiene dos escravos. Rio de Janeiro, Tese Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. 1847.
STEIN, Stanley J. Vassouras: Um município brasileiro do Café, 1850-1890. Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1990.

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